André Trigueiro defende regras e marco regulatório para investimentos na gestão da água no Brasil

Jornalista, convidado pela Conasa Águas de Itapema para palestra na última sexta-feira (22), Dia Mundial da Água, enfatizou atitudes essenciais para se repensar o saneamento básico num País com 35 milhões de brasileiros sem água potável e 100 milhões ainda sem rede de esgoto

 

 

A existência de um a data para se comemorar, em esfera global, o ‘Dia Mundial da Água’ revela, segundo o jornalista ambientalAndré Trigueiro, que realizou palestra em Itapema na última sexta-feira (22) a convite da Conasa Águas de Itapema, a dramaticidade e a urgência do mundo em olhar a água e refletir sobre a falta de cuidado e de atenção dispensada a este recurso essencial para a vida. A maior referência do jornalismo ambiental do Brasil, apresentador do programa Cidades e Soluções, na Globo News, e respeitadíssimo por seu compromisso com as questões de sustentabilidade, falou durante quase duas horas para uma plateia atenta formada por mais de 300 pessoas no Itapema Plaza Resort.

 

Com o tema “Gestão sustentável da água: um desafio urgente”, a palestra abordou questões de suma importância para a humanidade e que exigem a premência de uma nova cultura de comportamento dos cidadãos, lideranças e autoridades.Trigueiro lembrou dos 35 milhões de brasileiros sem acesso regular à água potável e dos, aproximadamente, 100 milhões de brasileiros sem acesso à rede de esgoto, além dos muitos casos de municípios onde há coleta, mas não há tratamento.

 

“O Brasil é desigual em vários indicadores, incluindo a água que está repartida no nosso território de forma totalmente assimétrica. O País detém 12% da água superficial de rio do mundo, mas a maior parte, mais de 70%, está concentrada na região Norte, onde vive pouco mais de 15% da população brasileira”, destacou, apontado que a maioria dos brasileiros vive em situações dramáticas por disputa ao acesso à água tratada.

 

O jornalista destacou também estudos do Instituto Trata Brasil que reporta o despejo diário nos rios de, aproximadamente, 5 mil piscinas olímpicas cheias com esgoto in natura. E alertou para o impacto sobre a saúde pública e a depredação do patrimônio das cidades. Como solução, Trigueiro apontou a emergência da instituição de regras claras e de um marco regulatório para a gestão da água. “Infelizmente, não temos ainda um cenário em que haja clareza e segurança dos investidores sobre como se posicionar neste setor. E são investimentos de longo prazo que precisam de parâmetros claros e transparentes”, reconheceu.

 

Resíduos nos rios

A quantidade de resíduos descartada inadequadamente também foi outro problema destacado por Trigueiro. “São 2 milhões de toneladas de lixo por ano lançados em corpos hídricos, o suficiente para encher 30 estádios do tamanho do Maracanã. Não existe a possibilidade de se imaginar que o descarte de resíduos não gere impacto contra nós mesmos”, acentua, indignado com a falta de consciência coletiva. Trigueiro realça que algumas atitudes devem partir do próprio cidadão, como o combate ao desperdício. “A gente cobra dos governos, mas precisamos ter cuidado porque quem faz a diferença somos nós”, sentencia.

 

Questionado sobre a dessalinização da água do mar, o jornalista concordou que a alternativa está sendo usada em alguns lugares do mundo, mas pontuou os problemas decorrentes do uso desta tecnologia. “Além de consumir energia em demasia, não se sabe o que fazer com todo o sal que virá desse processo, uma vez que a quantidade supera a necessidade de consumo e o excedente não pode voltar para o mar porque irá interferir no ecossistema e não poderá ficar na terra porque esterilizará o solo”.

 

Defensor confesso do ativismo como uma atitude renovadora em favor da vida, o jornalista incentiva condutas cidadãs para denunciar a depredação dos mananciais, reivindicar posicionamento dos gestores públicos e exigir planejamento urbano com regras sistêmicas. Trigueiro também sugere que se pense em alternativas inovadoras para o destino do tratamento de efluentes como subproduto para a lavoura. “Para cada solução, teremos um impacto. Impressiona a pobreza da discussão sobre a gestão da água e sobre o saneamento no Brasil. Precisamos ter metas, objetivos para que o desenvolvimento sustentável avance”, enfatiza.