Sabor empoderado

Elas triunfam num espaço historicamente masculino e hoje dominam a ciência dos cafés especiais

 

 

Ainda que em desvantagem no mercado de trabalho, as mulheres ascendem num dos setores que mais crescem no país: o de cafésespeciais. De mansinho, atrás dos balcões das cafeterias, as baristas conquistam um lugar até então dominado pelos homens, ganhando prestígio e revelando qu,e são experts em aguçar o paladar de um consumidor exigente. "Caminhamos a passos de formiga, mas lutamos pela valorização feminina nesse meio majoritariamente masculino. Há ainda outros desafios, como o preconceito que as mulheres têm em relação a si próprias", afirma Gisselle Schmidt, profissional do Café Psiquê de Florianópolis.

 

Comum na Europa e nos Estados Unidos, o ofício de barista ganhou projeção no Brasil a partir dos anos dois mil e desde então impulsiona o comércio de cafés mais elaborados, baseando-se em matérias primas de grande qualidade e  incremento de novos teores. "Tive a oportunidade de viver na Europa, onde a cultura do café é mais acentuada e a procura por blends extraordinários é frequente. Enquanto eles consomem de 11 a 13 kg do produto por ano, nós brasileiros ingerimos de 4 a 6 kg", certifica Gisselle, que acredita ser um negócio com grande futuro no Brasil e principalmente em Florianópolis, além de proporcionar grandes horizontes para a mulher.

 

"Esses dados reforçam o potencial dessa cultura econômica, ainda pouco explorada por aqui, e nós, mulheres, nos destacamos por conta de nossos estudos aprofundados. A prova disso é o sucesso que conquistamos nos concursos nacionais e internacionais", avalia a barista, que em 2008 abdicou da psicologia pelo aprendizado da arte do café. Com um currículo recheado de certificados, hoje ela é instrutora graduada da Specialty Coffee Associantion - SCA (Escola Americana e Européia de Cafés Especiais), e uma das referências do segmento em Santa Catarina.

 

De coffelover a barista

 

A psicologia perdeu também outra profissional. Após anos atuando numa instituição construtivista de ensino em São Paulo, Jess Barros seguiu os passos de Gisselle e apostou no barismo como um novo sentido pessoal. Na capital paulista encontrou o CoffeeLab, uma cafeteria e laboratório reconhecida pela engenhosidade de sua proprietária, Isabela Raposeiras, uma das pioneiras do ramo de cafésespeciais no Brasil, ícone nacional e com fama internacional. "Sou uma coffeelover de carteirinha, e um dos meus hobbies favoritos era experimentar cafés dos mais variados lugares de São Paulo e das cidades que eu visitava. Assim veio a vontade de trabalhar com a bebida, mas não tinha consciência de que esse universo era tão complexo", relembra a barista Jess Barros.

 

No pequeno Clemente Café, na Vila Mariana – charmoso bairro paulistano -, ganhou cancha e desde então orgulha-se de exercer a profissão e de acompanhar o desenvolvido dessa nova cultura através da ótica feminina. "Percebo que estamos cada vez mais presentes nesse nicho e que mais mulheres têm se interessado por esse universo que foge do conhecimento simplista sobre café, mas que incorpora uma profunda ciência, o estudo de toda uma cadeia produtiva”, analisa a profissional. Jess Barros vai além: “Acredito que nós sempre fomos tocadas por áreas de conhecimento que nos permite mergulhos complexos. E hoje, podemos ver grandes profissionais do gênero feminino tomando a frente na dianteira da cadeia produtiva, como produtoras, mestre de torra, baristas, empreendedoras e campeãs de campeonatos", analisa a expert que já sinalizou interesse em investir em Florianópolis.

 

Para isso, em companhia da amiga e inspiradora Gisselle Schmidt, ela incursionou pela região serrana do Estado simplesmente para conhecer hábitos e costumes das pessoas com o café. Esse foi só o primeiro roteiro. A ideia é seguir adiante observando como as pessoas se relacionam com essa bebida – a segunda mais consumida no Brasil (só perde para a água) -, como é a produção local e qual o interesse das pessoas pelos cafés especiais, que carregam o maior grau de pureza e sabor. Nos próximos meses, novos lugares em Santa Catarina serão desvendados, com a participação de outros baristas convidados por Gisselle. Ao final dessa peregrinação de sabor, um livro será editado, focando a cultura da bebida em todas as regiões do Estado.